sábado, 3 de dezembro de 2016

Palidez

Já não há muito mais para escrever no meio deste Outono que se vai instalando. Constato essa chegada nas folhas que caem das árvores, nas estradas em que circulo, fazendo viagens de ida e volta de um destino para outro. São folhas castanhas, amarelas, pálidas, velhas, caducas que caem lentamente ao som e sabor do vento. São pálidas e lindas. Caem pelo chão. Descrever este vislumbre é olhar para esse momento da descida da colina quando estamos parados no sinal vermelho à espera de arrancar. Coloco a primeira mudança e acelero até chegar ao sono tardio de mais um dia que passa. Esta magia de tudo acabar e recomeçar de novo, a palidez que vira alegria, a velhice que se torna infância, a época das luzes nas cidades que regressa todos os anos. Será que haverá algo mais para escrever.

domingo, 20 de novembro de 2016

Velhos

A noite parecia ser mais uma noite normal de mais um dia da semana, esperava o autocarro na paragem para ir a mais um concerto. A banda já tinha começado a tocar quando entrei na sala, havia imensa gente para entrar ainda. As canções iam sendo tocadas para gáudio de alguns e para indiferença de outros, ia encontrando amigos e conhecidos à medida que me ia aproximando da frente do palco. As canções de ritmo lento prosseguiam a sua apresentação ao vivo. Até chegar o encore, nessa altura há uma descarga rítmica e sonora mais forte, há corpos a mexer e a abanar, até chegar o fim com a última canção. Não foi o melhor concerto de sempre, foi apenas mais um concerto em que se chegou a casa ainda a tempo de descansar para o dia seguinte de trabalho. É que parecendo que não estamos a ficar velhos.

sábado, 12 de novembro de 2016

Agora

As emoções próprias destes momentos não apareceram como das vezes em que tudo estava a começar. Recordo a emoção das primeiras audições da banda que originou a editora que agora se finou. Nessa altura o coração batia rápido e certeiro, tinha encontrado algo diferente, emocionante. A partir daí construímos uma casa editorial que para a história ficará como algo entre o revivalismo do roque dos anos oitenta e uma excentricidade de alguns rapazes burgueses do Campo Grande. A noite do fim ficará para sempre marcada pela versão da nossa canção, batidas lentas e fortes e os acordes e as palavras entoadas à maneira de um funeral. Algo que nunca conseguiríamos atingir. A tarde-noite do enterro final foi um convívio como nos primeiros tempos de Alfama ou Anjos, em que éramos alguns artistas e amigos a cantar umas canções. Agora o tempo é outro, muito mais sério e regular, muito menos emocionante e muito mais previsível. Essa talvez seja a maior emoção agora.

domingo, 30 de outubro de 2016

Do Siso

Tenho tomado os comprimidos para as dores de quatro em quatro horas e fiquei em casa a descansar. A extracção de um dos dentes do siso, que teimosamente fui adiando, correu bem apesar da dureza do osso e da raiz que entortava e não deixava o dente sair. Marquei a consulta para a manhã do primeiro dia do fim de semana, para recuperar até segunda-feira. No final há mais um espaço vazio na minha boca e daqui a umas semanas arranco o último siso. A minha avó octagenária, que me telefonou à tarde para saber se tinha corrido tudo bem, disse-me logo que tinha ganho mais juízo. Como se a extracção de um dente me desse imediatamente mais sensatez e discernimento. Não deixa de ser curioso que após as mudanças profissionais e os fins anunciados de projectos editoriais haja um pouco mais de tino e de responsabilidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

Absoluto

Passou o tempo e não existiu nada para escrever. O silêncio tem tomado cada vez mais este espaço, até chegar o tempo de ser absoluto. Como os pingos de chuva que caíam enquanto esperava o autocarro da rede da madrugada com os meus antigos mocassins calçados e via os carros e os táxis a passar. Em silêncio. Isto já depois de mais uma festa de aniversário numa casa na Lapa. Prepara-se o funeral da editora que um dia foi a razão da existência deste espaço. O pensamento desse dia entristece os dias que vão passando e desse acontecimento, mas como já foi escrito antes: das ruínas construiremos o futuro, da morte faremos vida. Para já é só o silêncio que vai dominando e alastrando. Não deixo de pensar que isso pode ser bom, preparar o que vem sem dizer a ninguém o que se passa.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Dia de Trabalho

Amanhã é mais um dia de trabalho, é feriado e há trabalho para desempenhar. Não há folga de meio da semana, a compensação é justa para quem abdica do descanso para trabalhar. Tem sido assim há alguns anos, não me posso queixar porque sempre me ensinaram que quem trabalha é recompensado. No meu discurso de motivação falei acerca disso mesmo, do desempenho no trabalho, na capacidade que todos temos de melhorar apesar de já fazermos bem tantas coisas, de termos de ser nós a fazer, porque senão alguém virá fazer por nós essa mesma função. Até ao dia em que surge algo melhor, algo que compensa mais, em que somos ainda mais valorizados. Só desta forma, motivado e positivo, se evolui e se cresce. Para que o dia que hoje acaba seja a base do degrau que subimos amanhã.

domingo, 25 de setembro de 2016

A Infância

É a infância que volta a estar perante os meus olhos, perante o nosso olhar de pais. A vida passou a ter este sentido. Olhar para a infância é reviver o que já passou e agora volta a acontecer. É quase sempre assim, quando temos o privilégio de acompanhar o crescimento de uma criança. Vemos escorregas, baloiços, carrinhos, jogos, brinquedos, peluches, bolas, baldes, blocos de encaixe para construir, tudo aquilo que uma criança acaba por ter perto de si. Muitos episódios repetidos de bonecos animados, de coelhos gigantes a bombeiros salvadores, passando pelos inevitáveis animais de quinta, galinhas, porcos e afins, que agora surgem em todos os ecrãs, dos televisores aos telemóveis. As horas de lazer, as horas em que não estamos a trabalhar, são normalmente passadas nesta rotina infantil. Apenas mais uma forma da nossa infância regressar à nossa vida.

sábado, 17 de setembro de 2016

Madrugadas

A lua já vai alta nesta primeira madrugada após o início de mais um tempo novo. A passagem do tempo e o seu significado sempre foram o mote para a criação e para a produção de texto carregado de letras e de frases. Agora chegou o tempo de começar a dedicação ao tempo físico, à exigência e à concentração. À representação de um papel na vida real. É por isso que as entradas são cada vez menores e as aparições públicas cada vez menores. Poderá chegar o tempo em que seja possível regressar ao espaço público de uma forma mais fulgurante e significativa, se isso fizer algum sentido. Neste momento é a passagem do tempo que me ocupa, ponteiros de segundos a rodar. Este é o tempo das novas madrugadas de lua cheia alta e luzidia que entra pela janela da minha cozinha.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Recomeço

São férias grandes que acabam e passado uns tempos voltam, é o calor que fica na mesma. Há o recomeço natural do regresso à cidade, ao bairro, à rua. Desta vez o recomeço é um pouco diferente, bastante diferente, para dizer a verdade. Há mudanças a ocorrer a nível profissional, de processos que surgem de um momento para o outro, como acontece quase tudo. Pensa-se e tudo começa a acontecer. Desfazemos os planos e refazemos outros. Damos tudo, todo o tempo, para aproveitar uma situação que surge, aprender algo novo que ainda não sabemos fazer bem. A arte de gerir o tempo, de gerir um processo, de gerir uma equipa e voltar no dia seguinte para continuar a fazer tudo de novo. Como vai ser? Como irá acontecer o futuro? Não sabemos ainda, apenas sei que vou continuar a trabalhar para tornar o amanhã uma possibilidade. Vai acontecer.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Crescimento

Observar o crescimento de um filho poderá ser a maior dádiva que recebemos após a dádiva da nossa própria vida. Estamos a testemunhar a evolução e a progressão de um ser que já foi bebé e agora é uma criança que já anda, corre, cai e começa a comunicar connosco. No período de descanso semanal fomos até à vila turística voltada para o Atlântico, foram as festas da vila e aproveitámos para estar com mais família que contribuiu também para o crescimento. Houve danças ao som de música urbana, jogos de esconde-aparece, tropeções e galos na testa, houve molas de roupa como brinquedos, comida no chão e medo das ondas grandes. Ouvem-se as primeiras palavras: mais, não, avô, quero, mãe, papá. É no meio desta novidade que nos deitamos para mais um dia de trabalho, a relembrar o último fim de semana.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Dias do Sotavento

Os dias do sotavento algarvio passam ao ritmo da fase lunar. Estamos em quarto crescente e há ondas na praia e carreiros no mar. Há jogos olímpicos na televisão, primeiro a natação e a ginástica e agora começa o atletismo. O calor é o habitual para o mês em que estamos e felizmente o fumo dos incêndios de outros locais não se sente no ar. O calor é tanto que é habitual o ar condicionado estar ligado e as portas fechadas. Evita-se a praia a meio do dia e assim se descansa. À noite vamos a Ayamonte jantar tapas e petiscar, bebe-se cerveja fresca de calções e camisa de manga curta. Cresce a lua e começa-se a pensar no regresso a casa e ao trabalho. Ao ritmo diário que voltaremos a ter enquanto não chega outro período assim.

domingo, 7 de agosto de 2016

Do Ócio

Os dias têm passado à mesma velocidade de sempre e é quando chegamos a meio do período de descanso e pensamos que agora vão começar a passar mais rapidamente. Não vão e ainda falta muito até ao regresso a casa. A prática do ócio ainda está a meio do caminho. Até chegarmos ao fim o calor vai escaldando a areia da praia, o vento do fim da tarde sopra um pouco mais quando assim calha e adormece-se quando é hora de acordar para sair de casa. Descanso e poucas palavras. O destino recorrente respeita o ritmo do corpo dolente que adormeceu na noite anterior no sofá da sala. Estou sem horários e mantenho os mesmos hábitos, até na recusa de sair de casa até à praia porque sei que ela vai estar à minha espera um pouco mais tarde.

domingo, 31 de julho de 2016

Próximos Dias

Se formos a ver bem há quase sempre um ano que acaba e outro que recomeça quando vamos de férias. As férias são sempre um tempo de paragem, principalmente quando começa a existir uma rotina de férias. Há também uma rotina para as férias, pelo menos para quem a procura. Ano após ano, como noutros anteriores, fazemos as malas e rumamos para o mesmo destino de sempre. O mesmo é dizer que o sítio é o mesmo, as pessoas que nos acompanham são as mesmas, os cheiros e as gentes também, a areia e o mar também, o sol e a temperatura do ar, tudo o que nos faz recordar o que já passou. Serão assim também os próximos dias. Descanso de um ano com mais trabalho, em que o tempo voltou a passar rápido. É assim que vivemos e assim que envelhecemos, numa viagem para o sul, segunda terra do meu coração.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ao Contrário

Quando vamos ao contrário percebe-se melhor o caminho que fazemos quando vamos a favor. Caminhava a subir a escadaria do metropolitano perto do meu trabalho e fazia o caminho contrário ao habitual e reparei nas diferenças, na diferente perspectiva do espaço, da arquitectura, e cheguei ao meu destino habitual. Ao mudar a rotina, a forma como me desloco de um sítio para o outro, vejo a direcção que costumo fazer de uma outra maneira. Como se agora, como benefício, tivesse também a experiência das pessoas que vejo quando vou a favor, quando vou a caminhar da forma rotineira. Quando mudamos o sentido, a direcção, podemos estar apenas a afinar o rumo. Como se o contrário passasse a estar a favor, como antes o que era a favor passasse a ser contrário.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Quatro Anos

É curioso ler este texto passados quatro anos. É curioso porque com o tempo comecei a escrever um pouco mais sobre futebol, mas ainda assim é raro fazê-lo. Outra coisa curiosa é pensar que o texto escrito há quatro anos é muitíssimo actual, é só mudar o jogo para a final. O texto é premonitório e encerra uma crença. A crença que já existia naquele campeonato europeu de há quatro anos. Agora que somos campeões europeus é mais fácil dizer que tivemos razão antes do tempo e que o nosso país é eufórico-depressivo, sempre a duvidar das nossas qualidades enquanto povo, enquanto nação. A equipa da crença ganhou o torneio, tornou-se forte quando era fraca, soube ser paciente e estratégica depois de sofrer e defender o ataque das outras equipas. O remate do golo final é consequência do cabeceamento do primeiro golo do jogo anterior e do contra-ataque do golo do primeiro jogo a eliminar. Mas atenção que a crença e a esperança não são fáceis de praticar, dão muito trabalho.

sábado, 9 de julho de 2016

Reluzente

As pedras da calçada reluzem e brilham com a luz rarefeita deste sol de Verão. Caminho em direcção a mais um destino do meu dia. Vou contra o sol, contra o calor e o vento sopra, dando aquela falsa sensação de frescura. Mas a imagem que ressalta é mesmo a cor da luz do sol nas pedras brancas, efeito das lentes dos meus óculos escuros. Subo a rua que subia há muitos anos antes até à zona da casa da minha avó, onde vive a minha mãe e uma das minhas tias. Encontro a minha irmã que apareceu de surpresa para dar os parabéns ao afilhado, um dos meus primos. A família e o efeito da luz. A cor lilás reflectida e os anos que passaram entre os meus passos e os passos dos outros. Há também nesta luz reluzente aquela resposta que procuramos acerca da passagem do tempo e do que se mantém na nossa memória.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Origem do Nome

Todos nós começamos a ter noção do nosso nome muito cedo, mas demoramos mais tempo até perceber a sua origem. Hoje, na véspera do dia do santo que me deu o nome, é mais um dia para entender o princípio dessa nomeação. Foi nesta data, há trinta e cinco anos, que recebi o baptismo. Foi hoje há poucas horas que recebi a mensagem da minha mãe a pedir a protecção do santo que me dá nome. Esta história católica, que me chega através da tradição e da prática, significa que a minha origem é esta, a minha raiz é esta. É uma dádiva poder saber a nossa origem e saber que fomos protegidos desde o nascimento e que essa protecção é humana, através dos nossos pais e familiares, mas é sobretudo divina. Por esta razão agradeço mais uma vez este dia que passou, o dia em que fui entendendo cada vez melhor a origem do meu nome.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nostalgia Emocional

O melhor momento dos dias de concertos do festival a Norte foi a forma como o Panda Bear cantou a frase I will not give up on you da canção "Loch Raven". Não foi o melhor concerto do festival, nem de perto nem de longe, mas hoje em dia estou cada vez pior na avaliação de conjuntos e cada vez melhor na apreciação de momentos, modéstia à parte. E esse momento, o momento em que a canção ia sendo desfiada à minha frente e ouvia em loop aquela frase com a melodia toda inclusa, recordei outros tempos, outros momentos, outras idades, outras localidades, na forma de nostalgia emocional. Talvez um dia escreva sobre as recordações que tive num par de minutos que passaram como todos os minutos, agora apenas recordarei esse momento e a memória. Por vezes é preciso percorrer uma grande distância, um longo caminho, para num ou dois minutos a nossa vida voltar a ter sentido.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ao Norte

Já há algumas entradas terei escrito que este ano será o ano em que tenho acompanhado menos os lançamentos de álbuns e canções de artistas internacionais e nacionais. Para combater esta inércia, que se mistura com falta de tempo e falta de predisposição mental, decidimos por altura do Natal adquirir o único bilhete para um festival de Verão desta época que agora se aproxima. Por tradição e fidelidade a escolha recaiu no festival Primavera do Porto, até porque Barcelona exigiria outro tipo de logística, incomportável para o actual momento familiar. Apesar de muitos reveses, alguns deles bons, por haver outros eventos coincidentes, ainda será possível assistir a dois dias de concertos e um deles acompanhado. Dos festivais comerciais que nos são oferecidos este será quase sempre o mais independente ou alternativo, se é que isso ainda existe. De todo o cartaz há dois nomes que destaco por razões afectivas, Brian Wilson e os Animal Collective, por esta ordem, porque o primeiro é mais antigo e os segundos os mais novos. Duas razões mais que suficientes para mais uma deslocação ao Norte.

domingo, 29 de maio de 2016

Romantismo

O que impressionou naquele local foi o facto de ao pé da civilização pós-moderna surgir uma quinta cheia de lagos artificiais com carpas laranjas, plantas e árvores verdejantes num misto de romantismo bucólico e casa colonial. Ao longe víamos a cúpula do mega-fórum que é um gigante centro comercial e as tarjas das grande marcas de distribuição de bens de consumo da actualidade e ao mesmo tempo assistíamos ao casamento por debaixo das amoreiras e peixes a saltar nas piscinas de água doce esverdeadas. No meio dos jardins surgiam estátuas, palmeiras e ciprestes para completar aquele ambiente romântico. Se ao romantismo da casa juntarmos a celebração, a festa, a música e o fogo de artifício temos a receita perfeita para mais um casamento memorável.

sábado, 21 de maio de 2016

Noite Normal

Foi apenas há uma semana, descíamos os três em direcção ao Marquês de Pombal, a cantar e a sorrir, a celebrar mais uma conquista desportiva do maior clube de futebol português. Descíamos a avenida e depois fomos desviados para as ruas laterais, porque esta entrada estava cheia, rebentavam petardos ao pé de nós. Contornámos a praça até chegar à Liberdade. Nessa altura um dos elementos do nosso grupo foi para casa. Nós continuámos a tentar chegar mais perto. Antes disso, já perto do fim do jogo, cantámos o hino à varanda e gritámos o nome do nosso clube a quem passava lá em baixo na rua. A festa prometida chegou no fim, com a conquista do tricampeonato, apesar da vitória mais importante ter sido há mais de dois meses no estádio do principal adversário. Cheguei, enfim, ao Marquês. Nessa altura já estava sozinho e o autocarro com a equipa descia até à praça. Éramos milhares a cantar, a entoar os hinos e as canções. Ao som do ritmo dessas palavras os jogadores saltavam e agradeciam, agitando o espumante e mostrando a taça. Apenas a crónica de uma noite normal na vida de um tricampeão.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Escritos

A técnica é perder muito tempo a pensar naquilo que se vai escrever. Se não for assim há algo mais importante que nos capta a atenção e perdemos a linha de raciocínio e deitamos tudo a perder. Há uma semana atrás quando fez aquele calor imenso que parecia que o Inverno tinha acabado também tinha pensado em escrever uma entrada neste blogue, mas acabou por não acontecer. Entretanto a chuva já voltou, a chuva, o vento, tudo isso que entristece o coração, quando queremos passear. Mas apesar dessa chuva, desse vento, o passeio aconteceu, a paisagem reservou-nos o pôr do sol, os raios de luz entraram pela lente da máquina fotográfica do telemóvel para registar esse momento, cinco anos de momentos. São assim as entradas, os escritos deste blogue, que assim se irão manter até surgir algo novo, que o possa substituir.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Feriado de Descanso

O Abril que traz o sol da Primavera, as tempestades passageiras e o fascínio do meu filho com as crianças mais velhas. Ainda há umas semanas que o equilíbrio era dado por uma mão ou por apoio, quando agora já quase se corre no corredor e antes de chegar ao sofá, num movimento estilo mergulho, lança os braços para a frente para amortecer a chegada. São muitos momentos assim que têm acontecido, quase sempre captados pela retina e pela memória. Este súbito aquecimento do ar, como noutros anos passados recorda-nos sempre a aproximação dos meses mais quentes, solarengos e longos. Agora que já não é preciso o equilíbrio de outros tempos, as tempestades e os aguaceiros se dissiparão, comemoramos a sempre pontual passagem da vida com um feriado de descanso.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Demasiado Tarde

É óbvio que a vida muda. A mudança faz parte da vida e a própria vida é composta de mudança. É nesta verdade que vivo estes dias, como vivi outros dias em que havia tempo para quase tudo o que queríamos fazer. Agora há momentos de paragem no meio de uma tempestade granizada dentro do autocarro quase vazio. Durante o resto do tempo pensamos no trabalho que nos dão, no apoio que prestamos, nas respostas que nos pedem. Depois paramos em andamento e a chuva forte cria riachos no alcatrão e o verde do semáforo acende. Ainda há tempo, não é demasiado tarde?

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Rumo à Independência

Seria provavelmente mais um dia sem uma entrada neste blogue, mas acabou por não ser assim. Há dias que vencemos o sono e despertamos antes de deitar, fazemos os nossos últimos afazeres, resumos de reuniões ou pagamentos bancários, e conseguimos ainda ter tempo para olhar para mais um dia que passou. Consigo recordar que queria ter escrito sobre o adiar dos relógios de há uma semana e meia atrás e como isso era uma hora perdida que era ganha depois. Porque o nosso filho iria começar a deitar-se mais tarde e acordar mais tarde e mudar de quarto e como isso acabou por não acontecer. Isso já é passado, mas é presente agora. Agora que já estamos no horário de Verão e o nosso filho já dorme no quarto dele e dá mais um passo rumo à independência. Hoje consegui fazer isso, parar, olhar e reflectir. Do despertar à independência quando chega o fim do dia.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Às Montanhas

Passou o tempo para escrever sobre o regresso, a maneira como regressei. O tempo passou, não parou, voou livre sem aterrar. Agora que paro e escrevo sobre isso até esboço um sorriso. Hoje, enquanto o meu filho dorme e a sua mãe trabalha até mais tarde, tenho tempo para reflectir e escrever. Há cada vez menos tempo para isso, como se a vontade e a necessidade fossem cada vez menores. Penso na forma como pretendo passar o resto do tempo até regressar às montanhas. Chego à conclusão que quero que o tempo passe rápido até lá. Sem perceber bem que até lá muito irá acontecer e como isso será bom. Até que esse tempo chegue escreverei às montanhas.

sábado, 12 de março de 2016

Pico Veleta

Olhamos para cima e vemos o pico Veleta, o ponto mais alto da estância. Ontem subimos ao topo da estância, onde se sente o poder e a imponência da serra. No primeiro dia o tempo estava fechado, com frio polar e rajadas de vento e a meio da tarde a visibilidade ficou reduzida pela presença de nuvens e neve. É este poder que exige respeito, porque estamos sempre à mercê das condições meteorológicas. Mas ontem já esteve sol e subimos ao alto, para descer logo de seguida. Os dias sucedem-se, subimos para descer, para voltar a subir e voltar a descer. Um movimento repetitivo e sedutor. A serra acaba sempre por ganhar, voltamos sempre cansados e prontos para regressar no dia seguinte.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Serenata à Chuva

Aquilo que eu visionei foi uma serenata à chuva. O clube de futebol do meu coração a defender na segunda parte, com unhas e dentes e alguma sorte, fruto da incompetência adversária, a magra vantagem que obteve através de um grego goleador. A chuva começou a cair e a defesa cada vez mais compacta. A bola não entrava e não entrou mesmo. Como naqueles jogos do campeonato italiano em que a defesa supera o ataque. Também há vitórias épicas a jogar à defesa, não goleámos, mas defendemos a nossa baliza, erguemos uma muralha e quando passaram essa muralha os adversários falharam o alvo. Sabe bem vencer assim, com competência e sorte. Sabe bem ser do glorioso, sabe bem ser do maior clube português no mundo, o maior de Portugal.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Futebol e Neve

São horas de dormir após mais dois de descanso laboral que passaram num ápice. Já não vale a pena dizer o mesmo de sempre. Não é preciso e não é necessário. Segundo a minha mulher nos últimos tempos só penso em futebol e na neve. São tempos diferentes, de facto. Mas não são tempos novos. Já houve um tempo na minha vida onde pensava em pouco mais do que isso. No inverno sobretudo. A constatação da pessoa que vive ao meu lado todos os dias é real e verdadeira. Os meus tempos livres, desde que passo mais tempo em casa, passam pelo acompanhamento da transmissão em directo dos jogos de futebol e na preparação ao segundo dos dias de cansaço físico a descer as pistas da estância de inverno mais a sul da Europa.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Velocidade de Cruzeiro

Imaginam-se fotografias gigantes nas paredes vazias. Regressa-se por duas vezes ao estádio de futebol. Reviram-se os papéis com as contas do condomínio. Escreve-se pouco, trabalha-se mais. Cai um nevão na serra que vamos descer e as férias de Inverno estão salvas. O ritmo intensivo diário, diurno e nocturno. quando não adormeço, dá para rever a história resumida dos meus últimos dias. Sobra menos tempo para tudo o resto, para a escrita e reflexão, para a música e audição. A agenda do ano é tão preenchida que caímos no erro de tentar estar em dois sítios diferentes ao mesmo tempo. Segue assim a direito à velocidade de cruzeiro a passagem imperturbável do tempo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Orçamento do Estado

Agora que é Carnaval já posso voltar a escrever. Obviamente que não é assim mesmo como escrevo mas é quase. Já há Orçamento do Estado, o que estava por aprovar desde Outubro do ano passado, e depois das contas feitas chegamos ao fim com um orçamento com a maior carga fiscal de sempre. Há também a reposição de salários da função pública de uma forma original, de três em três meses há aumentos salariais. Diminui-se os impostos à restauração, que não irão descer os preços nem contratar e os combustíveis aumentam para todos. A economia mantém o crescimento anémico, as empresas sofrem com o aumento dos custos de transporte e reflectirão esse custo nos bens e serviços que prestam. A execução orçamental está completamente dependente da propensão marginal a consumir e na fé no aumento da receita fiscal, que será a maior de sempre. Amanhã já não será Carnaval.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Premonições

Nestes últimos dias tenho acordado com imagens dos sonhos que fui tendo enquanto dormia. Vejo imagens nítidas como fotografias ou filmes em que recordo aquilo que sonhei. Nesses sonhos tento antecipar o que a vida e o que o futuro me vai trazer. São premonições misturadas com desejos, preocupações que tento lidar e superar. Dizem que os sonhos têm essa capacidade e quem sabe essa origem. Hoje chega ao fim mais um mês em que se viveu muito mais do que se escreveu e reflectiu. Não quero ter o dom da ubiquidade, seria bom porventura, mas simplesmente já não dá para estar em todos os sítios que gostava, em todos os compromissos em que me coloquei. Os próximos meses serão meses de escolha. Que os sonhos também me possam ajudar nessas decisões.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Interesses

Há alinhamentos de cartazes que são revelados e ao mesmo tempo vejo novamente as condições da neve numa estância de ski em Espanha. São os interesses pessoais que tenho, que foram ganhando primazia sobre outros que já tive. Mesmo entre estes interesses existem e existirão conflitos. Hoje em dia a neve está a ganhar, não por muito, mas pelo suficiente para ser a preferência no investimento no tempo que tenho para lazer, que vai sendo cada vez menos. Não há muita explicação racional para esta preferência pessoal, tão radical como burguesa. São recordações de juventude, nostalgia de um tempo que já não volta mais, como todo o que já passou. Só montanhas e muitas pistas a descer e muitos momentos de família.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Experiência da Paternidade

Acabo de preparar o leite das onze horas da noite, a ceia do meu filho. Não é costume ser eu a preparar, muitas das vezes a essa hora já adormeci junto a uma almofada do sofá. Hoje o nosso filho não quer beber o leite. Podem ser os dentes que estão a nascer e provocam incómodo. Pode ser por outra razão qualquer que os pais de primeira viagem ainda não conseguem entender. Daqui a mais uns minutos tentamos outra vez. A minha mulher é a super mãe e a super mulher que vai dirigindo este barco. Estamos cansados mas alegres, estafados mas preenchidos, ensonados mas completos. Estamos a receber a experiência da paternidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Daqui Adiante

Provavelmente vai ser sempre assim daqui adiante. Tentaremos sempre perceber como o dia está outra vez a terminar e não houve tempo para quase nada. Mas não é bem assim. Existiu tempo para tudo. Existiu tempo para sair de casa à hora de sempre, depois da rotina de preparação matinal. Existiu tempo para trabalhar nos dois trabalhos que agora acumulo. Até existiu tempo para chegar a casa, levar o filho depois do banho enrolado numa toalha até ao quarto, arrumar a loiça lavada e colocar a loiça suja da manhã novamente na máquina, jantar a refeição preparada no robot de cozinha. Para depois arrumar de novo a cozinha enquanto tomamos mais um café. Entretanto há um novo ano para viver e será assim que será daqui em frente.